(...) plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, *macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai:
reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai.
– No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
*Macadamizar: pavimentar.
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.77.)
Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p. 190)
Vários discursos organizam a estrutura narrativa do romance Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Isso permite afirmar que a visão de mundo dessa narrativa
a) compartilha exclusivamente dos valores éticos dos ricos e é demagógica com a miséria social, marca inconfundível do romance de Garrett.
b) relativiza posições dogmáticas sobre a vida social, cultural e política, permitindo vários ângulos de observação.
c) denuncia as condições sociais injustas dos pobres da sociedade, o que indica o caráter panfletário do romance de Garrett.
d) divide o mundo entre ricos e pobres e não leva em consideração que uma vida justa depende da riqueza produzida na sociedade
_______________________
RESPOSTA B
O caráter digressivo do romance Viagens na minha terra apresenta diversas reflexões do narrador acerca de muitos assuntos do seu tempo, desde questões locais de Portugal a reflexões de caráter mais universal. No primeiro trecho apresentado, Garrett traz o tema da estrutura injusta da sociedade em forma de pergunta, possibilitando ao leitor refletir sobre o problema da desigualdade.
Não é, portanto, panfletário, nem compactua com apenas um dos lados, o que exclui A e C. A divisão dicotômica sugerida na D não é explícita no texto, onde há sim, uma relação de causa e consequência, apenas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
OBRIGADO PELO COMENTÁRIO!